às vezes eu fico pensando quando foi que o brasileiro
decidiu, coletivamente, que ler era opcional. sério. parece que, em algum
momento entre a febre do whatsapp, os reels infinitos e o tédio nacional, a
leitura perdeu a disputa.
e perdeu feio.
hoje em dia, pedir pra alguém ler um texto de três
parágrafos é pedir demais. “me manda áudio” virou o novo “bom dia”.
só que tem uma consequência cruel nisso tudo: se a gente não
lê, a gente desaprende a escrever. porque escrever é músculo — e o brasileiro,
claramente, não tá malhando essa parte. eu recebo mensagens que mais parecem
desafios linguísticos: tudo sem vírgula, sem acento, sem coerência, sem vontade
de viver.
tem dia que eu leio algo e penso: isso aqui não foi
digitado, isso aqui foi sofrido.
o mais engraçado é que as pessoas dizem “ah, mas eu não
tenho paciência pra ler”, como se paciência fosse um talento raro, tipo tocar
violino ou fazer imposto de renda sozinho.
não, meu querido, paciência se cria. ou pelo menos se tenta.
mas tentar exige… adivinha? ler. e aí vem o áudio. o áudio
de 2 minutos.
o áudio de 7 minutos. o áudio de 12 minutos que é
praticamente um podcast clandestino.
e quando você finalmente responde escrevendo duas frases, a
pessoa responde: “desculpa, não li. manda áudio?”
é isso. estamos vivendo uma era em que voz ganhou da letra,
e a escrita virou quase um dialeto em extinção. daqui a pouco vamos precisar de
biólogo pra explicar o que é crase.
mas sabe o que mais me preocupa? não é só o fato de não
lerem — é que isso afeta tudo.
quem não lê, escreve mal. quem escreve mal, pensa mal. quem
pensa mal… bem, tá explicado o país.
e eu não tô dizendo pra ninguém virar machado de assis. só
queria que as pessoas voltassem a ler o básico. uma legenda. um e-mail. uma
placa. uma porcaria de manual. qualquer coisa que não inclua apertar um botão
verde e despejar um áudio de ópera dramática às 23h47.
talvez ainda dê tempo de salvar esse hábito. talvez não.
mas, enquanto isso, sigo aqui tentando escrever num país que
responde texto com áudio. e talvez essa seja a mais perfeita definição da vida
contemporânea brasileira:
um grande texto ignorado, e um grande áudio que ninguém
pediu.
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